Janeiro Branco: A urgência do cuidado com a saúde mental e o desafio da sobrecarga feminina

Criado em 2014 pelo psicólogo Leonardo Abrahão, o Janeiro Branco consolidou-se como um movimento social essencial para a conscientização sobre o bem-estar emocional da sociedade. E a escolha do primeiro mês do ano não foi por acaso: como o período simboliza recomeços, metas e reflexões, o entendimento é de que funciona como uma espécie de folha em branco, que convida as pessoas a reescreverem suas histórias priorizando a mente.
O movimento ganha ainda mais importância no Brasil porque, segundo dados oficiais da Organização Mundial da Saúde (OMS), o País lidera o ranking mundial de transtornos de ansiedade, com 9,3% da população afetada, o que equivale a aproximadamente 18 milhões de brasileiros. A depressão também é uma preocupação crescente, agravada pelo impacto da pandemia de Covid-19, que levou a um aumento de 25% nos casos de transtornos mentais no País.
MULHERES SOFREM MAIS
Por tudo isso, o Janeiro Branco busca reduzir o estigma que ainda envolve o sofrimento emocional, incentivando a identificação de sinais como isolamento e alterações no sono. E, no debate proposto pelo movimento, a saúde mental das mulheres exige um olhar ainda mais atento e específico.
Estudos indicam que elas estão mais expostas a quadros de ansiedade, estresse e depressão. Esse cenário não decorre de uma suposta fragilidade, mas sim da sobrecarga histórica e social que enfrentam diariamente ao acumularem múltiplas jornadas: o cuidado com os filhos, a gestão da casa, o suporte a parentes idosos e as exigências da carreira profissional.
A cultura da sobrecarga muitas vezes naturaliza o fato de a mulher “dar conta de tudo”, o que acaba por silenciar sentimentos de cansaço extremo e tristeza. O movimento Janeiro Branco busca, exatamente, alertar que ignorar esses sinais de esgotamento não é um sinal de força, mas um risco à saúde.
Pesquisa realizada em 2025 pelo Ministério das Mulheres, intitulada Sem Parar, confirma a vulnerabilidade das mulheres, geralmente sobrecarregadas para se mostrarem como ‘guerreiras’ diante da sociedade. A pesquisa apontou que 43% das mulheres são as únicas responsáveis pelo trabalho doméstico não remunerado; que 48% cuidam de alguém da família sem qualquer tipo de remuneração e que 57% trabalham mais de 40 horas por semana, quando somado o trabalho remunerado e o trabalho de cuidado.
No fim das contas, essa sobrecarga contínua impacta diretamente a saúde física e mental das mulheres. Por isso, no mês da conscientização sobre a saúde mental, fica o alerta que o cuidado com a saúde mental das mulheres exige tempo, divisão justa do cuidado e suporte. E que descansar não é privilégio, é direito.
