Transporte público em crise: Sim, ainda é possível fazer as pessoas gostarem de andar de ônibus

O cenário do transporte público no Brasil exige transformações imediatas para reverter uma tendência alarmante: entre 2013 e 2023, o número de passageiros no País despencou 44,1%, restando apenas 223 milhões de usuários no final desse período.
Para especialistas e gestores, a recuperação do setor de transporte coletivo urbano depende de uma mudança de foco urgente, priorizando a qualidade do serviço como estratégia central para reconquistar quem migrou para o transporte individual ou por aplicativos – principalmente no caso do transporte remunerado com motocicletas, como Uber e 99 Moto.
E o afastamento do público não é por acaso. O gargalo da qualidade e o abandono dos usuários são pontos fundamentais nessa fuga. De acordo com a Pesquisa CNT de Mobilidade Urbana de 2024, os principais fatores que expulsam o passageiro dos ônibus são os veículos lotados, sujos, atrasados e o tempo excessivo gasto nos trajetos.
Diante dessa realidade, muitos usuários têm preferido arcar com os custos de carros próprios, motos ou serviços de aplicativo para garantir mais conforto e, principalmente, previsibilidade.
A crise é alimentada por um ciclo vicioso: a queda na arrecadação das tarifas, que sozinha não sustenta o sistema, reduz a capacidade de investimento das prefeituras e empresas, degradando ainda mais o serviço.
A experiência do Rio de Janeiro: qualidade gera resposta rápida
O caso do Rio de Janeiro surge como um exemplo de que o investimento em eficiência traz resultados imediatos. Após reformulações, o sistema BRT (Bus Rapid Transit) da capital fluminense registrou um crescimento de 133% no número de passageiros no final do ano passado. Operando com corredores exclusivos e alcançando 98% de pontualidade, o sistema provou que “quando a qualidade existe, o passageiro responde e responde rápido”.
Entre as mudanças fundamentais implementadas no Rio e que servem de lição para o País, destacam-se três principais pontos:
1)Remuneração por quilômetro rodado: Diferente do modelo tradicional, onde a empresa ganha por passageiro, o pagamento por quilômetro incentiva a regularidade das linhas.
2)Contratos com empresas menores: A gestão carioca passou a privilegiar companhias com menor capital, consideradas mais eficientes operacionalmente.
3)Critérios de qualidade para subsídios: O pagamento de subsídios públicos passou a ser atrelado a indicadores como climatização dos veículos, baixos índices de acidentes e instalação de itens de segurança, como câmeras de monitoramento e botões de pânico.
O desafio do Novo Marco Legal
A urgência por melhorias esbarra agora nas discussões do novo Marco Legal do Transporte Público no Congresso Nacional. No entanto, há ceticismo entre especialistas. Para o advogado Caio Figueroa, o texto atual do projeto pode ser insuficiente para gerar mudanças reais, pois não amplia significativamente as receitas nem impõe punições severas para prefeituras que descumprirem investimentos em mobilidade.
Embora o marco proponha o uso de 60% dos recursos da CIDE-combustíveis para subsidiar as tarifas, críticos argumentam que isso não resolve o problema estrutural se não houver um plano eficaz para trazer o passageiro de volta. A mensagem do setor é clara: sem uma reforma profunda que priorize o bem-estar de quem usa o ônibus, o transporte público brasileiro continuará em uma rota de declínio.
As discussões fizeram parte do painel “O novo ciclo das concessões de transporte público urbano: marco legal e modelos de remuneração”, que fechou o P3C 2026, evento realizado pela plataforma Necta e correalizado com o Estadão, o escritório Portugal Ribeiro & Jordão Advogados e a B3. O evento reuniu governo, investidores e iniciativa privada do setor de infraestrutura, na terça-feira, 24/2, em São Paulo.
